About Me

Desde 2020, aqui no Caffe Librarium, compartilho minhas descobertas e insights sobre o fascinante universo da cultura pop, minha jornada de aprendizado conectando diversos universos.

Sou estudante de Jornalismo, formada em Marketing. Sempre em busca de novos saberes, como cinema e trabalhos com o texto, filosofia e outras coisitas.

Quando não estou imersa na vida acadêmica, me encontro entre pilhas de livros e café, ou entregue a boas doses de vinho e quadrinhos, desbravando novos universos.

Uma raposa orgulhosamente da Sonserina e uma padawan em ascensão.

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O Fio Invisível que Conecta Mundos em Your Name


Your Name inteiro é um cordão sendo trançado diante dos nossos olhos, cordão esse que une ficção, magia e as tradições culturais orientais. Para alguns é apenas mais uma história de romance clichê e para mim, é um deleite, pois fornece um paraíso conceitual para explorar e uma boa história de romance, apesar de não ser um universo onde habito muito.

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Your Name conta a história de Mitsuha e Taki, dois jovens que nem se conhecem, com ela mora no interior e ele mora em Tóquio, nem saberiam um do outro se não fosse por um simples detalhe: começam a trocar de corpo um com o outro, fazendo com que Mitsuha viva como Taki e ele viva como ela alguns dias da semana.

Sem ter ideia do que está acontecendo, restam a eles viver aqueles dias da melhor maneira possível, se adaptando a nova realidade eles começam a deixar recados um para o outro, falando o que eles podem ou não fazer quando trocam de corpo. Avisando ao outro o que aconteceu durante o dia, para que isso seja menos incomodo possível, enquanto eles tentam descobrir o motivo.

Fios do Destino 

O fio, o tecido e o tear formam um campo simbólico ligado ao destino. A vida como fio é uma metáfora ancestral presente em diversas culturas, representando o destino, a duração da existência e as conexões entre os seres humanos.

Um dos meus temas favoritos, recorrente em inúmeras tradições mitológicas, é justamente essa ideia da vida como um fio: uma metáfora milenar que simboliza a trajetória existencial como algo contínuo, frágil e interconectado. Esse fio integra a chamada “teia da existência”, na qual os destinos se entrelaçam, unindo os seres humanos ao universo.

Na mitologia grega, o destino encontra as mãos das Moiras (Cloto, Láquesis e Átropos) que tecem, medem e cortam o “fio da vida” de mortais e deuses. Na mitologia romana, esse mesmo arquétipo reaparece nas chamadas Parcas (Nona, Décima e Morta).

Temos registros também desse mesmo conceito na mitologia nórdica, com as Nornas (Urd, Verdandi e Skuld) tecem os fios do destino dos homens e dos deuses.

Em Your Name, de Makoto Shinkai, essa metáfora reaparece sob a forma de Musubi: a essência invisível que conecta tempos, pessoas e acontecimentos. Seja na pulseira de Taki ou no laço de Mitsuha. Musubi é o cordão que conduz o que precisa existir até o lugar onde deve estar.

A proposta deste texto é justamente essa: puxar alguns desses fios e observá-los mais de perto, começando pelo fio central, Musubi.

Musubi - Conectando Destinos

Reprodução do Mangá

A palavra Musubi (結び) significa conclusão ou união. Musubu (結ぶ) significa amarrar. É um dos temas centrais de Your Name, essa ideia metafórica dos fios que unem histórias, destinos, que conecta indivíduos se entrelaça com a tradição japonesa.

Numa lingua antiga, o Deus que protege nossas terras é chamado de Musubi. Essa palavra tem significado mais profundo. Atrelar os fios é Musubi. As ligações entre pessoas também. Inclusive, o fluxo do tempo também é Musubi. Tudo isso é o poder de Deus. Por isso os fios que trançados que fazemos são uma obra de Deus. Eles representam o próprio fluxo do tempo. Isso é Musubi. Isso é o tempo. Eles vão se juntando e ganhando forma. Eles se torcem, embaraçam e, às vezes, voltam ao normal. Eles acabam se rompendo e voltam a ligar-se. Isso também é Musubi.


–Trecho retirado do mangá, volume único. JBC

A história de Mitsuha e Taki só acontece porque os fios do destino existem. O tempo não é uma linha reta, e sim como um cordão: ele dobra, volta, cruza com outros, e às vezes se rompe. Essa é exatamente a definição espiritual de Musubi. O encontro deles não deveria ser possível, vejo esse cordão como uma metáfora da vida, e por isso talvez esse seja um dos meus favoritos. A vida não é essa coisa linear, definida. Ela é esse fio invisível que se torce, se embaraça e depois de alguma forma se desembola e segue. 

O fio entre os personagens insiste, puxa, embola e busca uma forma de enfim colocá-los onde devem estar. A conexão não segue a lógica cronológica, desconhece espaço ou distância.

Akai Ito - Fio Vermelho do Amor 

Importante notar que Musubi não se apresenta isoladamente na narrativa. Ele dialoga diretamente com outro elemento simbólico amplamente disseminado na cultura japonesa: o Akai Ito (赤い糸), o chamado “fio vermelho do destino”

Enquanto Musubi representa o princípio de ligação, movimento e criação, que torna o encontro possível, o Akai Ito atua como símbolo do destino do encontro amoroso, unindo aqueles que estão predispostos a se encontrar ao longo de suas vidas. 

É possível sugerir que enquanto Musubi leva ao encontro, o Akai Ito, define as cores dessa união, revelando que a conexão é um laço amoroso. Mas esse detalhe só é percebido mais precisamente na animação. Dito isso, vamos analisar algumas diferenças nas linguagens e recursos utilizados pelo autor para dar vida a obra e como ele trabalhou nesses dois diferentes universos: Animação e Mangá.


[Mitsuha Miyamizu]: É você mesmo.
[Taki Tachibana]: Vim te ver. Não foi fácil porque você estava muito longe.

[...]
[Taki Tachibana]: Para não esquecermos quando acordarmos, vamos escrever nossos nomes um no outro.

– Citações favoritas dessa Raposa

Curiosidade: Acredita-se que a lenda se originou na China, associada ao deus lunar casamenteiro, Yue Lao.

Diferenças entre a animação e o mangá

No filme os elementos estéticos, narrativos e simbólicos parecem se organizar melhor. Shinkai converte conceitos religiosos e mitopoéticos em linguagem cinematográfica, transformando Musubi não apenas em tema, mas em método narrativo cheio de cores e claro, marcando a presença do fio vermelho destacando-os nas cenas. 

Reprodução da Animação


Para além das cores, outras diferenças que podem ser notadas são:

Ritmo e atmosfera

Shinkai trabalha o tempo com suspensão explorando planos longos do céu, trilhas sonoras que completam as emoções dos personagens, cortes que trazem sentimentos de perda, separação e a sensação desse separar abrupto que Taki e Mitsuha sentem ao voltar para os seus corpos. No mangá, o olhar do leitor enxerga os personagens mais distantes e em locais que parecem mais amplos e vazios.

A subjetividade dos personagens

O mangá tende a explicitar pensamentos internos com mais frequência, enquanto o filme confia muito no subtexto, os olhares, gestos, pausas e pela trilha sonora que foi muito bem selecionada para conseguir expressar o que os personagens sentiam. O cinema opera pelo não dito; o mangá, pelo dito. Cada um, cria um tipo de aproximação distinta com Mitsuha e Taki.

A sua gentileza, o seu sorriso e o jeito que você sonha
Eu imito tudo isso seu, sem nem perceber
Só mais um pouquinho de novo
Só mais um pouquinho depois
Fica só mais um pouquinho de novo

– Nandemonaiya, RADWIMPS 

 

A emoção do encontro 

A cena em que eles finalmente se veem no kawatare-doki (crepúsculo) é construída com música, cor, movimento, pausa e lágrimas, porque eu chorei. No mangá, apesar de emocionante, a ausência dessa composição sensorial torna o momento menos arrebatador. O filme literalmente “para o mundo” e faz o espectador estar ali naquele momento, absorvendo cada gesto.

Para mim essas foram as principais diferenças percebidas, todas aspectos mais voltados para a diferença de linguagem e vale como menção honrosa a cena do cometa, que no filme é um espetáculo luminoso, majestoso, que domina o céu. 


Light Novel

Outro formato da obra a ganhar as prateleiras foi a light novel pela editora Verus em 2018. Nele tem um posfácio, onde Makoto Shinkai comenta porque ele decidiu escrever o livro mesmo existindo a animação e deixo aqui como curiosidade:

“No inicio desse posfácio, eu afirmei que esta história é mais apropriada para ser exibida na forma de filme de animação (…) Mesmo acreditando nisso, eu acabei escrevendo este livro. Fiz isso porque tive vontade de escrevê-lo.

Porque senti que pode existir um Taki ou uma Mitsuha por aí em algum lugar. Logico que esta história é uma fantasia, mas acho que podem existir pessoas que tenham passado pelas mesmas experiências, ou que sintam as mesmas coisas que eles. Pessoas que perderam entes queridos ou um lugar importante, mas decidiram continuar lutando. Pessoas que ainda não encontraram um proposito na vida, mas continuam a busca-lo, esticando as mãos, acreditando que um dia encontrarão o que desejam. E eu acho que escrevi este livro porque senti a necessidade de contar essa história com outro ritmo, de uma forma um pouco mais lenta, diferente do mundo deslumbrante do cinema.”

Considerações finais

Apesar de ser uma obra ficcional, há nela um flerte constante com o real: o desejo de partir de uma cidade, a sensação persistente de que algo foi perdido, ainda que não saibamos nomear o quê e a intuição de que o amor talvez não seja um choque, mas uma queda lenta e quase imperceptível. Até que, como num despertar silencioso, percebemos alguém de outro modo. Sem hora marcada, sem data, apenas a consciência súbita de que algo mudou.

Minha ideia de amor é uma mistura de Your Name com a Trilogia Before: esse fio invisível que pode se esticar, se enroscar, mas não se rompe. O sol se põe, a magia se dissipa, e ainda assim Celine e Jesse escolhem ficar, quando tudo o que resta é a escuridão. Porque, mesmo entre fios emaranhados, o destino, invisível e incerto ainda é, no fim, uma escolha. E estou acreditando que Mitsuha e Taki, se escolheram no final.

Muita coisa ficou de fora deste texto. É impossível traduzir plenamente a beleza de um romance tão sensível em palavras. Há obras que pedem mais entrega do que explicação, mais sentir do que racionalizar e esta é uma delas. Definições e resumos tendem a encaixotá-la; prefiro permanecer com o peso dessa experiência impronunciável, mas viva. Por isso, fica o convite: conhecer a obra e tecer, com ela, suas próprias experiências e para ajudar tem a Playlist do Spotify porque não sou obrigada a ouvir sozinha. Espero que gostem!




Notas do Rodapé

MILTON YUKI. Musubi: a união para criar valor para a sociedade. GazzConecta, 03 nov. 2023. Disponível em: https://gazzconecta.com.br/vozes/confraria-instituto-connect/musubi-a-uniao-para-criar-valor-para-a-sociedade/. Acesso em: 10 dez. 2025. 

MIYAJIMA, Ricardo. Musubi. Os Primeiros Dias da Lei (blog), 26 ago. 2015. Disponível em: https://osprimeirosdiasdalei.wordpress.com/2015/08/26/musubi/. Acesso em: 10 dez. 2025.


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4 Comentários

  1. Eu acho Your Name uma obra lindíssima, reconhecendo o clichê mas você me fez ver algo a mais. Bom texto!

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    1. Gosto muito de como ele é usado aqui, por colocar o destino em diálogo com a cultura, o Akai Ito e Musubi dão um toque interessante.

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  2. Nem sabia que tinha uma playlist com as músicas da Animação, Vlw demais dona raposa!!!
    Mandou bem no texto

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    1. Tem sim haha. Ouço direto as músicas tema é uma experiência sensorial extra, que complementa muito bem a obra. Super recomendo "Nandemonaiya" do RADWIMPS que está na playlist além da música tema "Sparkle".

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