About Me

Desde 2020, aqui no Caffe Librarium, compartilho minhas descobertas e insights sobre o fascinante universo da cultura pop, minha jornada de aprendizado conectando diversos universos.

Sou estudante de Jornalismo, formada em Marketing. Sempre em busca de novos saberes, como cinema e trabalhos com o texto, filosofia e outras coisitas.

Quando não estou imersa na vida acadêmica, me encontro entre pilhas de livros e café, ou entregue a boas doses de vinho e quadrinhos, desbravando novos universos.

Uma raposa orgulhosamente da Sonserina e uma padawan em ascensão.

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A Redução Simbólica: entre Matrix e Byung-Chul Han



Exploração entre mundos: das leituras de Byung-Chul Han ao eco do filme The Matrix

O que resta de nós quando tudo ao redor parece acelerar, transformar sentimentos em produtos, experiências em sombras e nos tornamos mais máquinas de produção do que humanos?

Foi a partir dessas inquietações que acabei por destino ou acaso, me aproximando de Byung-Chul Han e ao percorrer obras como A Agonia de Eros, Sociedade do Cansaço e Vita Contemplativa, ser profundamente atravessada por suas observações, de como estamos vivendo em uma cultura que suaviza o conflito, acelera o tempo e esvazia a experiência, transformando até o sensível em algo leve, positivo e consumível.

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Não é de hoje que percebemos uma certa movimentação do capitalismo de se apropriar, de se agarrar as embalagens, remodelar deixando-as mais palatável à sociedade, esvaziando seu conteúdo e deixando apenas como algo estético e reduzido, às vezes acompanhado de um termo de rebranding, como Soft ou atrelado a palavras como tendência ou moda. Como esquecer dos livros como tendência de decoração?

Nesse cenário, o que se perde não é apenas conteúdo, mas a própria possibilidade de experiência. A aceleração constante e a lógica do desempenho deslocam o sujeito para um estado de exaustão permanente. Já não há tempo para a pausa, para o olhar que demora. A contemplação cede lugar à produtividade.

No fim, o que resta é uma cultura que preserva formas, mas esvazia experiências. As coisas continuam ali, belas, organizadas, compartilháveis, mas já não exigem de nós presença, apenas consumo.

O gótico é um exemplo didático dessa redução, de como o olhar superficial apaga o brilho da essência. O que nasceu da tensão cultural, como exteriorização da melancolia, acaba se tornando apenas roupa preta e maquiagem dramática nas capas de revistas. A embalagem permanece, mas o espírito evapora.

O Gótico como exemplo passa para o Soft Goth (ou gótico suave/suave goth) é uma tendência de moda e comportamento focada estritamente na estética, funcionando como uma versão suavizada, comercial e acessível do estilo gótico tradicional. Diferente da subcultura gótica original, que é baseada em música, história e um estilo de vida específico, o soft goth é descrito como uma interpretação superficial e estilizada, muitas vezes impulsionada por redes sociais.

Byung-Chul Han argumenta que a sociedade contemporânea transforma tudo em superfície positiva e consumível, eliminando conflito, negatividade e profundidade.


Do Abismo a poça

Historicamente, a estética gótica emerge como subcultura nos anos 1980, profundamente conectada à cena pós-punk e a bandas como Bauhaus, The Cure e Siouxsie and the Banshees.

Não se trata apenas de um estilo visual, mas de um universo simbólico compartilhado. Subcultura designa grupos que, dentro de uma cultura dominante, desenvolvem valores, sensibilidades, códigos e formas de expressão próprias.

Nesse sentido, a estética funciona como linguagem cultural e marca de identidade com filosofia, história e estética própria, mas que caminha do abismo para o mero superficial. O que antes era expressão existencial torna-se apenas um mero estilo consumível.

Nesse ponto ocorre o que chamo de redução: o gótico deixa de ser experiência cultural e passa a funcionar como signo visual.

Mas e de forma geral? Como podemos olhar para essa situação?

Ainda somos capazes de experiências culturais profundas ou só conseguimos consumir apenas a sua versão mais simplista?


A Matrix, Baudrillard e Chul Han

O que me leva a Matrix (1999), o filme distópico tem suas raízes justamente no conceito de “deserto do real”, onde a realidade é substituída por simulações hiper-realistas.

Neo liberta-se desse lugar encenado de hiper-realidade, mas o que está em jogo não é apenas a descoberta de uma ilusão. A Matrix não se sustenta por esconder o real, mas por torná-lo tão próximo que já não se questiona ou se busca por algo diferente. Não há estranhamento para a maioria, apenas para algumas almas inquietas.

Menino: Não tente entortar a colher
— isso é impossível. Em vez disso, tente apenas perceber a verdade.
Neo: Que verdade?
Menino: Não existe colher.
Neo: Não existe colher?
Menino: Então você verá que não é a colher que entorta, é você mesmo.

Longe do pânico da dominação das máquinas, outro medo se insinua no subtexto: quando já não há distinção entre o real e sua simulação. Com a descoberta da verdade, não há possibilidade de retorno à ignorância, e assim como Neo, ao finalmente compreender as configurações, não podemos deixar de questionar e buscar entender mais sobre a realidade e não ceder ao controle das máquinas, mesmo que isso signifique não viver mais dentro de um sonho ou de uma ilusão, por mais atrativa que ela pareça.

Em Morpheu e naqueles que despertam o incômodo não surge do nada; ele nasce da curiosidade, de um olhar que não se satisfaz e desconfia mesmo quando tudo parece funcionar.

É nesse ponto que a leitura de Byung-Chul Han se aproxima. Ao descrever uma sociedade que elimina o negativo, o conflito, a dor, a diferença, o autor aponta para um cenário em que já não há tensão suficiente para provocar ruptura. A experiência torna-se lisa, contínua, sem fricção e a ilusão se mantém sustentada pela indiferença, todos os dias na Matrix são normais... mais um dia comum.

O lugar que dói é o mesmo que arrepia

A curiosidade é esse movimento que torna a ruptura possível, pois não se liberta quem não começa, antes, a questionar. Em um mundo que se sustenta sem atrito, a curiosidade torna-se rara, e talvez seja justamente ela o primeiro gesto de liberdade.

Talvez seja esse o verdadeiro aprisionamento: não a ilusão, mas a incapacidade de se incomodar com ela. E nesse lugar podemos concentrar a nossa reflexão em como o capitalismo captura signos, esvazia significados e devolve as formas como produto mastigados, que atiçam os olhos mas sem causar espanto.


A expulsão do diferente

Han argumenta sobre a exclusão do negativo. Em A Agonia de Eros, o amor sofre com esse excesso de positividade que elimina o negativo de sua estrutura (diferença, tédio, dor, tristeza, melancolia), gerando uma sociedade superficial, desprovida de substância, transformando o mundo em um Inferno do Igual.

É irônico perceber que a subcultura nasce tentando escapar da superficialidade da cultura dominante, emergindo como quebra do padrão social, para acabar assimilada e vendida. O rompimento é justamente o que molda o universo alternativo, pois surge a singularidade com a percepção de que seus valores se diferem do dito padrão ou mainstream.

Esse é justamente um dos problemas da simplificação: a perda do contexto para elaboração do sentido. Memória e identidade andam juntas. A história e o sentido são os primeiros a morrer nas manobras mercadológicas de assimilação. O diferente some se pudermos ressignificar, remover elementos que distoam. Não há nada que não possa ser transformado em tendência.

O que perdemos quando experiências culturais profundas
são transformadas apenas em estética?

Segundo Han, a sociedade contemporânea apresenta uma crescente incapacidade de lidar com a alteridade. O outro, aquilo que é estranho, perturbador ou diferente tende a ser neutralizado ou assimilado.

Han chama esse fenômeno de expulsão do diferente e de narcisificação do mundo. No lugar do encontro com o diferente, surge um consumo constante do igual.

Subculturas como o gótico que surgem do estranhamento, da forma marginal, obscura, contêm aquilo que a cultura dominante prefere evitar. Mas quando o mercado captura essa subcultura, o estranho é suprimido e apagado, transformando em um produto similar mas desprovido da essência que compoe o original. Saboor original!

Sem o encontro com o diferente, desaparecem algumas coisas fundamentais:
  • conflito de ideias
  • tensão intelectual
  • reflexão crítica
  • experiência de alteridade

O diferente é mantido apenas como imagem domesticada. Mas o que mais perdemos?


A expulsão do espanto e a perda do sensível

Com a eliminação do negativo, transformamos tudo em igual, perde-se algo: a capacidade de se surpreender.

Se, na tradição filosófica inaugurada por Aristóteles, o pensamento nasce do espanto diante daquilo que interrompe e desestabiliza, então a expulsão do diferente não implica apenas uma reorganização cultural, mas uma transformação da própria experiência.

Ao suavizar o estranho, eliminar o conflito e tornar o mundo continuamente acessível e consumível, a cultura contemporânea dissolve as condições que tornam o espanto possível. Os signos permanecem, mas já não provocam pensamento. O olhar desliza, reconhece, consome mas não se detém. Perdemos também a contemplação.

A perda do sensível revela-se, assim, como perda do espanto, da admiração, da contemplação. E, sem espanto, o mundo deixa de ser experiência para tornar-se apenas superfície.

Smith: Por quê, Sr. Anderson?
Por que, por que o senhor insiste?
Neo: Porque eu escolho insistir.

— Smith e Neo em sua batalha fina
l

Banalizar objetos, sentimentos, expulsar o negativo, excluir a dor, silenciar a sombra, calar os sentimentos … não se permitir sentir, ser atravessado, sofrer ou abrir espaço para a melancolia… viver no automático. Deixamos de nos afetar.

Em A Agonia de Eros, o outro desaparece sob o excesso de positividade; já não há alteridade que fira, apenas reflexos do mesmo. Em Sociedade do Cansaço, o sujeito se esgota não pela opressão externa, mas pela exigência de desempenho, tornando-se incapaz de pausa. E, em Vita Contemplativa, perde-se o tempo do olhar que demora, da experiência da vida e dos seus momentos e encantos.

O que se dissolve, na novela da vida real, não é apenas o conflito, mas a própria possibilidade de ser afetado, distante espanto, do encanto, da curiosidade, morre também a contemplação e o torpor da experiência desse encontro.

Por afeto compreendo as afecções¹ do corpo,
pelos quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída.
– Spinoza

Talvez a saída não esteja em romper de forma brusca, mas em recuperar aquilo que foi sendo expulso do quotidiano acelerado e resumido em apenas empenho e cansaço: o silêncio, a demora, a contemplação, o olhar demorado até que o comum se torne em estranhamento e desperte a nossa alma pelo thaumazein. Ser ousado o suficiente para sustentar o que não é imediatamente confortável ou compreendido e permitir-se sentir, até o incômodo.

É a partir desse atravessamento que este texto se constrói, do incomodo de como olhamos o mundo que nos cerca, de resistir aoi impulso de tornar todas as coisas descartáveis, de combater o discurso do positivo, de viver apenas em luz e apagar a beleza da sombra, até mesmo da nossa própria sombra, da profundidade que nos cerca. Em um mundo que prega que pessoas e objetos são substituíveis, é necessário lembrá-lo dos afetos que nos afetam e a força que eles possuem para permanecer.

Talvez o maior desafio seja ajustar as próprias lentes e moldar o olhar para perceber as nuances… Como em Matrix, talvez o mundo de simulacros seja mais palatável e que este não permita ver tanta beleza no chamado mundo real, mas é justamente esse mundo e as suas provocações que nos devolve a sensação de estarmos vivos.

Notas de Rodapé

HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2017.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. Vita contemplativa: ou sobre a inatividade. Petrópolis: Vozes, 2023.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.

MATRIX. Direção: Lana Wachowski; Lilly Wachowski. Estados Unidos: Warner Bros., 1999.

[1] Em Ética, Baruch Spinoza distingue afecção (affectio) e afeto (affectus). Afecção refere-se às modificações do corpo produzidas pelos encontros com outros corpos, isto é, ao impacto imediato dessas relações. Já o afeto corresponde à variação da potência de agir decorrente dessas afecções, podendo aumentá-la (alegria) ou diminuí-la (tristeza). Nesse sentido, os indivíduos são continuamente atravessados por encontros que modulam sua potência, no interior do que o autor compreende como conatus, o esforço de perseverar na existência.

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2 Comentários

  1. Adorei o texto, confesso que li apenas um livro do Han e achei bem chato, ver como você aplica torna mais interessante.

    Parabéns pelo texto!

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  2. Ávani Emily Lima De Brito24 março, 2026

    Maravilhoso texto

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