About Me

Desde 2020, aqui no Caffe Librarium, compartilho minhas descobertas e insights sobre o fascinante universo da cultura pop, conectando universos e linguagens da arte.

Sou estudante de Jornalismo, formada em Marketing. Quando não estou imersa na vida acadêmica, me encontro entre pilhas de livros e café, ou entregue a boas doses de vinho e quadrinhos, desbravando novos universos.

Uma raposa orgulhosamente curiosa buscando seu equilibrio na força, em uma jornada meio errante mixando código sith e jedi.

Você me encontrar também no HQ Corp Podcast e Geek Fy Me.

What’s The Furthest Place From Here? Música, Identidade e Sobrevivência


Em um mundo pós-apocalíptico cercado de escombros da civilização anterior que ainda respiram poeira e memória, What’s The Furthest Place From Here? constrói seu universo a partir de um elemento essencial: a música.

Acompanhamos jovens e adolescentes que crescem entre ruínas físicas e simbólicas. Sem referências estruturais sólidas, reinventam códigos, constroem pertencimentos e moldam o caos para sobreviver. Nesse cenário, a coleção de discos deixa de ser apenas nostalgia e torna-se uma bússola existencial daqueles que sobreviveram.

A obra articula temas como amadurecimento, amizade e família sob uma nova perspectiva. E é justamente nesse ponto que a música emerge como eixo central, um dispositivo de tradução do eu. Saindo da função de apenas pano de fundo, mas como linguagem, identidade e forma de sobrevivência.

Logo nas primeiras páginas, o diálogo entre Sid e Prufrock apresenta essa perspectiva ao leitor, sobre a importância da música nesse mundo:

“your choice is supposed to define you. it’s your everything.
it’s who you are going to be after you leave here.”¹

Escolher um disco, é afirmar ao mundo quem você é ou quem deseja se tornar. A capa importa, sim, mas o som carrega o peso da existência, mostra a sua voz, alma e essência.

É impossível não estabelecer um paralelo direto com a nossa própria experiência. A música sempre funcionou como extensão do sujeito sendo um grito daquilo que muitas vezes não sabemos como pronunciar, tornando-se guia emocional ao longo da nossa jornada. Ela define gostos, molda estéticas e organiza emoções. Fala quando faltam palavras. Marca fases, pessoas, perdas e descobertas. Em muitos casos, nos apresenta a nós mesmos antes mesmo de sabermos nos nomear.

Esse papel formador não é novo. Como aponta Bréscia, a música acompanha a humanidade desde suas origens, sendo utilizada em rituais fundamentais nascimento, morte, cura, fertilidade. Antes de ser entretenimento, ela já era linguagem, estrutura social e ferramenta de significado.

Provocação Visual

Visualmente, a obra reforça essa pulsação e irreverência. A estética vibrante, marcada por cores intensas e personagens estilizados, cria um contraste quase irônico com o cenário devastado. Os personagens são coloridos em cenários cinza.

Há vida ali crua, jovem, pulsante, rebelde e estilosa. E essa vitalidade não nega o caos; ela dança com ele. Jovens com estilos alternativos que gritam resistência em um mundo destruído e sem esperança e justamente essa contradição me prendeu às páginas.

Conectando universos: Quando a música encontra os quadrinhos

Uma das coisas que mais me fascinam na arte é justamente quando diferentes linguagens colidem e passam a conversar entre si. Cinema e pintura, literatura e fotografia, música e quadrinhos ou uma colisão de universos diferentes. Existe algo profundamente interessante nesses encontros, como se uma forma artística expandisse os limites da outra e criasse novas maneiras de sentir uma história, de olhar o mundo e tocá-lo.

Em What’s The Furthest Place From Here?, essa intersecção acontece de forma particularmente fascinante. Os universos da música e dos quadrinhos não apenas coexistem eles se atravessam o tempo inteiro. A música invade a narrativa, constrói atmosferas e transforma o próprio ato da leitura em algo quase sonoro. Enquanto os quadrinhos oferecem corpo, imagem e textura para sentimentos no campo do silêncio.

Outro ponto extremamente interessante levantado por Matthew Rosenberg é a maneira como música e quadrinhos se complementam enquanto formas de linguagem. Para o autor:

Existe uma conexão em como elas se complementam. Quadrinhos são um meio puramente visual, mas dependem dessas imagens para criar uma sensação de alma. Música é inteiramente auditiva, mas faz o mesmo pelas imagens.

Matthew Rosenberg

Música e quadrinhos, mesmo sendo linguagens diferentes, produzem efeitos emocionais muito parecidos. Quadrinhos funcionam através de imagens estáticas: desenhos, enquadramentos, cores, expressões, composição de página. Não existe som real ali. Ainda assim, essas imagens conseguem transmitir emoção, atmosfera e “alma”. Um silêncio numa página pode doer. Uma cor pode gerar angústia. Um enquadramento pode criar intimidade.

A música não mostra imagens concretas, mas cria imagens mentais e emocionais dentro da cabeça de quem escuta. Uma canção pode fazer você imaginar lugares, lembrar pessoas, visualizar cenas inteiras ou sentir atmosferas específicas sem mostrar nada literalmente.

Essa percepção ajuda a compreender por que a HQ possui uma atmosfera tão sensorial. Os discos mencionados ao longo da narrativa funcionam como uma trilha invisível acompanhando o leitor, ampliando emoções, tensões e memórias presentes nas páginas, são também o encontro do autor e do leitor, que compartilham álbuns e músicas.

A principal é a conexão entre culturas. Sou um grande defensor de aproximar mais quadrinhos e música, e acho que isso acabou entrando no livro… Além disso, existe uma conexão em como elas se complementam. Quadrinhos são um meio puramente visual, mas dependem dessas imagens para criar uma sensação de alma. Música é inteiramente auditiva, mas faz o mesmo pelas imagens. Então acabamos criando uma HQ sobre discos, que você pode ouvir enquanto lê, e que funciona quase como uma trilha sonora do quadrinho. Isso cria um ciclo enorme de coisas que achamos que deveriam estar mais conectadas.

Matthew Rosenberg, 

Existe uma troca constante entre imagem e som. Enquanto os quadrinhos transformam imagens em sentimento, a música cria imagens mentais através do áudio. A HQ nasce justamente desse encontro: uma narrativa visual atravessada pela memória musical.

É justamente desse encontro entre imagem e música que nasce a força da obra. A parceria entre Matthew Rosenberg e Tyler Boss entrega uma narrativa que equilibra tensão, mistério e brutalidade com momentos de intimidade silenciosa. É uma história sobre sobreviver, sim, mas, sobretudo, sobre se tornar.

Bem, esta autora também possui um gosto musical peculiar quase construído por atravessamentos, ruídos e tangentes sonoras que transitam entre diferentes atmosferas e gêneros. Do punk carregado de urgência e rebeldia aos sons mais melancólicos e introspectivos do pós-punk, da energia crua do rock alternativo às experimentações mais etéreas e emocionais, a música sempre ocupou um espaço fundamental na maneira como enxergo o mundo e me conecto com ele.

Talvez seja justamente por isso que What’s The Furthest Place From Here? tenha provocado uma identificação tão imediata. Porque a obra compreende algo muito específico sobre crescer: em algum momento da vida, todos nós tentamos encontrar músicas capazes de nos traduzir. Canções que funcionam como abrigo, manifesto, memória ou até extensão daquilo que ainda não conseguimos dizer em voz alta.

E no fim, talvez a música faça exatamente isso. Ela transforma sentimentos difusos em algo reconhecível,. Dá forma ao caos. Nos acompanha silenciosamente enquanto atravessamos nossas próprias ruínas internas.

Talvez por isso, mesmo depois do fim do mundo, ainda exista alguém segurando um disco nas mãos.

E como não poderia ser diferente, deixo a seguinte provocação: quem você é quando todo o resto desaparece e que música continua tocando no fim do mundo? Me diz que música toca no seu apocalipse!


Notas do Rodapé

1. Tradução. “ Sua escolha deve definir você. É tudo você. É quem você vai ser depois que sair daqui”

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