O Cemitério - O Horror ao Som dos Ramones




Hoje o Caffe das Trevas está bem servido, com uma dose de Stephen King, conhecido como o Mestre do Horror. Faremos uma visita a uma de suas obras sombrias: O Cemitério (Pet Sematary). Mas, antes de abrir a porteira desse terreno maldito, vale uma pergunta: afinal, o que é o horror?

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Mais do que provocar medo, o horror é um gênero que nos confronta com aquilo que ameaça nossa compreensão do mundo, rompe os limites daquilo que consideramos natural e transforma o familiar em algo inquietante. Monstros, criaturas sobrenaturais e maldições são alguns dos recursos utilizados para provocar aquele frio na espinha e causar repulsa, mas é preciso lembrar que o horror não depende necessariamente de algo sobrenatural e que, e muitas vezes, é a chave para explorar aquilo que é humano, investigando as nossas contradições e questionando os limites que somos capazes de ultrapassar.

Stephen King tem uma habilidade que eu particularmente adoro, a de revelar o horror no cotidiano. Sua escrita aproxima o leitor de personagens comuns, suas relações interpessoais, suas fragilidades, construindo uma sensação de familiaridade que, pouco a pouco, vai se desintegrando e dando lugar às angústias e inquietações.

Em O Cemitério, essa aproximação torna tudo ainda mais perturbador, pois a história parte de uma família comum, com um gato de estimação. Vemos o cotidiano simplório até que a normalidade acaba abrindo espaço para o sobrenatural. King explora a humanidade nas entrelinhas do horror, destacando temas como o luto, o medo da perda de entes queridos e nossa impotência diante da morte.

O Cemitério pergunta ao leitor o que poderia ser mais assustador do que descobrir que o desejo de recuperar aquilo que amamos pode nos conduzir a algo que jamais deveríamos ter despertado?


Spoiler Alert: A partir daqui a análise irá se aprofundar na história e em seus elementos por isso estarei citando e usando trechos e informações do livro.
Desmontando O Cemitério


Minha parte favorita de toda leitura é a hora de desmontá-la e verificar quais foram os atravessamentos possíveis. Para desmontar esse grande quebra-cabeça, é preciso compreender que o horror nessa obra não se constrói a partir de um único elemento, mas de diferentes camadas que se entrelaçam ao longo da narrativa.

A transformação do familiar em algo ameaçador e a subversão de figuras fazem parte dessa construção. Entre os recursos que Stephen King utiliza, os tropos chamam a atenção por contribuírem para a construção do horror, e mesmo sendo elementos reconhecíveis e até vistos por alguns como clichês, acabam enriquecendo a obra pela forma a qual são trabalhados na narrativa.


Mas o que são tropos?


O termo se refere a elementos ou padrões recorrentes que reconhecemos em histórias, seja na literatura, no cinema, nas séries ou nos quadrinhos. Podem aparecer na construção de personagens, em situações, conflitos e até mesmo em determinadas imagens que, de tanto serem utilizadas, passam a fazer parte do nosso repertório cultural.

No horror, encontramos diversos exemplos de tropos narrativos, como a casa assombrada, presente em Os Outros (The Others, 2001) e Horror em Amityville (The Amityville Horror, 1979); a final girl, figura feminina que sobrevive aos ataques e enfrenta a ameaça, como vemos em O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974) e Halloween: A Noite do Terror (Halloween, 1978); e o grupo de jovens ameaçado por um assassino, explorado em filmes como Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980) e Pânico (Scream, 1996).

Esses são apenas alguns exemplos de recursos narrativos que podem ser repetidos, transformados, subvertidos ou combinados para produzir diferentes efeitos.

Como King trabalha em suas obras?

É interessante notar como King mobiliza elementos conhecidos do horror para explorar questões como a morte, o luto e a dificuldade de aceitar a perda. Em muitas de suas obras, o horror nasce de situações corriqueiras e de conflitos humanos. Em O Iluminado, por exemplo, o alcoolismo de Jack Torrance se relaciona à perda de controle da sua vida, o levando à violência familiar e à deterioração de suas relações, revelando que o horror também pode estar naquilo que reconhecemos como parte da realidade.

A análise dos tropos será nosso ponto de partida para investigar como esses elementos contribuem para o desconforto e a inquietação ao longo do romance. Entre os tropos que podemos identificar estão o retorno dos mortos de forma errada (Came Back Wrong), o lugar amaldiçoado ou proibido, o conhecimento proibido, a força maligna ancestral e o aviso ignorado.

Entre esses elementos, há um que chama mais a minha atenção por subverter uma imagem que culturalmente associamos à inocência: o tropo da criança monstruosa, ao qual dedicarei um pouco mais de atenção.

A Criança Monstruosa



Às vezes, a morte é melhor

Associamos a infância à inocência, à fragilidade e àquilo que desperta em nós o desejo de proteger. O tropo da criança monstruosa subverte essa expectativa, transformando uma figura que deveria representar a inocência em fonte de medo, ameaça e até mesmo violência. O contraste entre aquilo que esperamos de uma criança e aquilo que ela representa na narrativa é justamente um dos elementos que tornam esse recurso tão poderoso. É exatamente o choque do inesperado que nos domina.

É importante notar como King constrói a atmosfera e nos prepara para o horror que acompanha a transformação de Gage. É possível separar em duas etapas: antes da transformação e a fase do rompimento.

Antes da transformação, somos apresentados a Gage como uma criança pequena e afetuosa, que inspira proteção. Vemos o quanto essa criança é amada por sua família, toda a construção dessa relação também evoca no leitor o mesmo afeto.

Por causa dessa aproximação entre leitor e personagem, também passamos a compartilhar do luto dos pais diante da perda da criança. Entendemos quando Louis começa a cogitar no cemitério de bichos como solução.

Na fase do rompimento, vemos esse vínculo familiar se perder com a morte de Gage e seu retorno, que subverte a imagem de doçura associada à criança e a transforma em algo demoníaco.

O contraste se torna a fonte do horror para o leitor, pois reconhecemos fisicamente aquele filho querido, mas já não conseguimos manter a mesma relação afetiva com aquilo que retornou. Apesar da aparência habitual, algo naquele retorno parece profundamente corrompido. O caminho normal, para nós leitores seria nos questionar: O que sobrou de Gage?


O Tropo do Aviso Ignorado

Não é bom ser curioso a respeito de certas coisas.
– Jud Crandall

O tropo do aviso ignorado ocorre quando uma personagem recebe uma advertência sobre um perigo, alertando sobre as consequências de determinada ação, mas decide não lhe dar ouvidos. No terror, esse recurso cria tensão ao permitir que o leitor perceba os perigos enquanto acompanha os avanços do personagem.

Mais do que anunciar uma tragédia iminente, ele pode revelar aspectos da personalidade do personagem como a sua curiosidade, seu orgulho, sua negação ou a força de um desejo que a impede de recuar.

Em O Cemitério, esse tropo aparece nas advertências feitas a Louis Creed sobre o terreno funerário e os perigos relacionados a ele. Mesmo diante dos alertas, Louis acaba ultrapassando os limites que lhe foram apresentados. Sua decisão, porém, não pode ser explicada apenas pela curiosidade. O luto e o desejo de recuperar quem perdeu tornam cada vez mais difícil aceitar a irreversibilidade da morte.

Porque conhecer os tropos é importante?

Os tropos são bons guias para compreendermos as nuances das obras que temos diante de nós. Identificar quais aparecem e como são utilizados nos permite atravessar as camadas da narrativa e compreender melhor como seus elementos se articulam e o que revelam desse mundo e dos personagens que o habitam.

O Cemitério e o Verdadeiro Horror


O solo do coração de um homem é mais empedernido, Louis…
Um homem planta o que pode, e cuida do que plantou.
– Jud Crandall

O Cemitério é o título escolhido para a edição brasileira, mas o original, Pet Sematary, pode ser traduzido como “Cemitério de bichos”. A palavra correta em inglês é cemetery, e o título Pet Sematary altera sua grafia para sematary, indicando que foi escrito por crianças e sendo uma das piadas internas.

O terreno funerário é uma presença central na trama que guarda um segredo que a cidade conhece, mas teme, estando ligado ao retorno de Church, Gage e de outros animais e pessoas da cidade.

Na ficção de King, o lugar tem origem em um antigo cemitério associado ao povo Mi’kmaq, cujos poderes permitem que os mortos retornem transformados. Já o cemitério de animais foi inspirado em um lugar real que o autor conheceu no Maine. A morte de seu gato Smucky, atropelado nas proximidades, acabou por impactar profundamente o autor, gerou o medo de que algo semelhante acontecesse com seu filho. Esse episódio foi a fonte de inspiração para a criação do romance.

Ao finalizar a obra duas coisas me ocorreram, a primeira é como somos assombrados pelo medo da morte e a segunda é quais mistérios podem habitar o coração do homem?

Cena de Ramones Pet Sematary


Essa inquietação também aparece em “Pet Sematary”, uma das minhas faixas favoritas do álbum Brain Drain(1989) dos Ramones, música inspirada no universo do romance de Stephen King escrita por Dee Dee Ramone, para a adaptação cinematográfica do livro, dirigida por Mary Lambert. Portanto, ela nasceu diretamente da relação entre o romance e o cinema.

É interessante observar que a canção parece prolongar a atmosfera do livro, ecoando para além das páginas. Durante a leitura, acabei ouvindo a música diversas vezes, absorvendo cada impacto da letra e entrelaçando-a à frase do livro: “Às vezes, a morte é melhor”. Essa ideia também aparece na canção, na recusa em ser enterrado no cemitério de bichos e na declaração de não querer viver a própria vida novamente.


Come out of the ground, not making a sound
The smell of death is all around

And the night when the cold wind blows
No one cares, nobody knows

I don’t want to be buried in a pet sematary
I don’t want to live my life again
I don’t want to be buried in a pet sematary
I don’t want to live my life again

A canção dos Ramones acrescenta uma nova camada. Enquanto a voz da música rejeita a ideia de ser enterrada naquele cemitério e de viver a própria vida novamente, Louis tenta desfazer a perda e atravessa o limiar que deveria ter respeitado.

Em O Cemitério, a morte não representa apenas o fim da vida, mas também uma fronteira que Louis se recusa a aceitar e opta por transpor. Seu sofrimento é compreensível, assim como o desejo de recuperar aqueles que ama. O horror começa a ganhar outra dimensão quando esse desejo se sobrepõe à capacidade de reconhecer os limites daquilo que pode ser desfeito.

O cemitério, nesse sentido, não é apenas o lugar de onde os mortos retornam transformados e é habitado por forças sombrias, mas é o espaço que confronta os vivos com as consequências de suas escolhas. Imagino que isso que Jud Crandall parece alertar e que no fim foi ignorado.

Desconfio que não seja as forças de um cemitério poderoso que mova as pessoas a utilizá-lo, mas as forças ocultas em nossos próprios corações.

Louis deseja recuperar aquilo que perdeu, mas não pode determinar o que voltará, nem controlar o que esse retorno significará. O amor, que inicialmente parece justificar sua decisão, torna-se inseparável da recusa em aceitar uma realidade irreversível e o desloca para o desfecho da história.

Volto, então, às palavras de Jud Crandall sobre o solo do coração humano e aquilo que um homem planta e cuida. Com isso o mestre nos provoca a refletir que o verdadeiro horror, talvez não esteja apenas naquilo que enterramos ou que retorna da terra, mas também naquilo que cultivamos dentro de nós quando não conseguimos deixar partir. Afinal, quais mistérios podem habitar o coração do homem?


Notas do rodapé

KING, Stephen. O cemitério. Tradução de Mário Molina. Rio de Janeiro: Suma, 2010.

RAMONES. Pet Sematary. In: Brain Drain. [S. l.]: Sire Records, 1989.

CEMITÉRIO maldito (Pet Sematary). Direção: Mary Lambert. Estados Unidos: Paramount Pictures, 1989. 1 filme.
🦊 Lis Estefany

Desde 2020, aqui no Caffe Librarium, compartilho minhas descobertas e insights sobre o fascinante universo da cultura pop, conectando universos e linguagens da arte.

Uma raposa curiosa de alma inquieta, que ama explorar diferentes universos. Pesquisadora em formação em Cinema e Linguagem Audiovisual e em Literatura, Arte e Filosofia, interessada nos diálogos entre cultura pop, literatura, filosofia, mitologia e as diferentes linguagens da arte.

Movida a café, filosofia, mitologia e vinho, buscando meu equilíbrio na Força em uma jornada errante, criando meu próprio código.

Você também me encontra no HQ Corp Podcast e no Geek Fy Me.

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