Monstro do Pântano: Uma Lição de Anatomia foi escrito por Alan Moore e publicado originalmente em 1984 pela DC Comics, na revista Saga of the Swamp Thing #21. Com arte de Stephen R. Bissette e John Totleben, cores de Tatjana Wood, essa edição se tornou um marco pela história que conta e pela forma como redefine completamente seu personagem central.
A trama reconta a origem por esse motivo estabelece como ponto de partida a morte do seu personagem principal e nos deixa um cadáver como objeto de estudo, o horror e o sobrenatural começam aqui. O corpo do Monstro do Pântano, capturado é submetido a uma autópsia. Durante o exame, descobre-se que sua anatomia, embora semelhante à humana, não possui função real, os órgãos que existem apenas como forma, não como sistema.
A partir dessa constatação surgem dúvidas a respeito da identidade, “como se constitui esse monstro?” os estudos levam a revelação central da trama.
Anatomia da Identidade
A história caminha entre metáforas e camadas, conduzindo o leitor de uma percepção a outra, a partir da revelação de que o Monstro não é Alec Holland transformado, mas uma entidade vegetal que absorveu suas memórias e construiu, a partir delas, uma ideia de identidade.
Nesse ponto surge o deslocamento da obra, a história deixa de ser sobre origem e passa a ser sobre percepção. O que se acreditava ser verdade: corpo, memória, identidade, se revela instável. E é nesse ponto que a narrativa ganha força metáforica, simbólica e discursiva interessantes e novos níveis se desdobram deixando o leitor com suas reflexões, sem necessariamente lhe impor qualquer resposta.
Paradoxo do Monstro do Pântano
A questão do “ser humano” atravessa tudo e, inevitavelmente, retorna como uma investigação que nunca se esgota. A frase dita pelo próprio Monstro após ler o relatório sintetiza esse impasse: ele não é mais humano, mas também não se reconhece como outra coisa. Fica nesse intervalo.
Nada melhor do que um monstro, para nos levar a refletir sobre a nossa humanidade. Estamos tão convictos do que nos torna humanos e do que nos torna únicos, mas quando questionados sobre quais características, além das biológicas abrange esse conceito, se torna complexo responder.
Para Alec, a pergunta não era mais só o que há de humano na criatura, mas o que há de Alec, de real naquilo que respira e que tem fragmentos do que ele era, quase um novo Paradoxo de Navio de Teseu, criando então o Paradoxo do Monstro do Pântano. Ter as memórias de alguém, de certa forma a sua essência faz desse aglutinado a pessoa em si? Esqueçam por um segundo a aparência e nesse único momento, focando nesse pequeno trecho: todas as experiências de uma vida, os sentimentos, sensações, não seria isso que nos constitui quem somos individualmente e essencialmente nós? E se com todo esse kit ainda assim, você não fosse você?
A ideia de simulacro aparece de certa forma aqui, algo que já vimos em Matrix e no post sobre anterior “A Redução Simbólica: entre Matrix e Byung-Chul Han” e o mesmo perigo aparece aqui, a simulação se torna tão real que não sentimos a necessidade de questionar, mas uma vez que a simulação é quebrada e a realidade despedaça, não há retorno a ao abrigo acalentador da ignorância — é estabelecido assim a tensão a inquietude, curiosidade e o incômodo.
A simulação apresentada por Moore, começa em um corpo que imitava o humano com precisão, mas sem necessidade real órgãos que funcionavam mais como crença do que como estrutura. Minha parte favorita ainda é a do pulmão, que estava ali presente na simulação e que nem precisava estar ali de fato e após o Não-Alec-Não-Monstro constatar de que não precisva de rótulos ou definições, aceitar sua própria constituição e entender mais de si, reaprendeu a respirar. Esse respiro repleto de significado.
Atravessando as fronteiras dos universos: Pintura x Quadrinho
Existe algo de muito simbólico no encontro entre Uma Lição de Anatomia e a pintura The Anatomy Lesson of Dr. Nicolaes Tulp de Rembrandt. Não apenas visualmente, mas conceitualmente. Ambas parecem compartilhar essa necessidade quase obsessiva de abrir um corpo em busca de respostas, como se entre órgãos, carne e tecidos existisse algum vestígio escondido daquilo que chamamos de “eu”.
A pintura de 1632 se tornou famosa pela composição, pelo chiaroscuro e pela maneira como transforma uma autópsia em espetáculo visual. Homens cercam um cadáver tentando compreender o funcionamento da vida através da morte. Séculos depois, Alan Moore faz algo muito parecido em Saga of the Swamp Thing #21, mas desloca a pergunta. A mesa de dissecação continua ali, o corpo aberto continua ali… mas agora já não tentam entender apenas um organismo. Tentam entender identidade.
E talvez seja justamente isso que torna esse paralelo tão fascinante para mim. Enquanto Rembrandt olha para o corpo humano tentando decifrar sua estrutura, Moore olha para algo que já nem pode mais ser chamado plenamente de humano. A autópsia deixa de ser apenas científica e passa a ser existencial.
No fim, as duas obras parecem chegar ao mesmo lugar: abrir um corpo nunca garante encontrar uma resposta. Às vezes só revela camadas ainda mais profundas de dúvida.
A grande lição da anatomia é esse lugar de olhar parra para dentro, olhar para os órgãos vitais da nossa natureza, os tecidos das memória, cortar, abrir, descobrir… Mas esse movimento é arriscado, porque assim como o Navio de Teseu, Alec-Monstro-Ilusão-Criatura-Algo-Alguém corre o risco de perder o chão ao qual se apoia e no fim, encontrar apenas mais, algo que Camus sabia muito bem, o filósofo do absurdo já dizia “O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo.“
Mas nós almas inquietas e espírito aventureiro, ainda assim precisamos repousar nossa mente em pelo menos algo minimamente racional, e mesmo que não seja conceituado inventamos algo que possa servir de guia, o monstro se torna um “ser da sombra”, como algo que existe fora das definições claras, que só se percebe no silêncio. Complexo demais para dizer que não há Alec ali, humano demais para ser chamado apenas de monstro, vivo demais para ser apenas planta, cômico demais para ser apenas horror.
No fim, o que permanece é essa sensação de deslocamento não ser mais o que era, e ainda não saber exatamente o que se é. E talvez seja justamente aí que a história encontra sua beleza: não em dar respostas, mas em sustentar a pergunta e por isso uma das minhas histórias favoritas, porque sou apaixonada pela magia do não-dito. Se ainda não leu, leia e se já leu me diz se essa história também te atravessou!

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