About Me

Desde 2020, aqui no Caffe Librarium, compartilho minhas descobertas e insights sobre o fascinante universo da cultura pop, conectando universos e linguagens da arte.

Sou estudante de Jornalismo, formada em Marketing. Quando não estou imersa na vida acadêmica, me encontro entre pilhas de livros e café, ou entregue a boas doses de vinho e quadrinhos, desbravando novos universos.

Uma raposa orgulhosamente curiosa buscando seu equilibrio na força, em uma jornada meio errante mixando código sith e jedi.

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A Poesia dos Instantes: Wabi-Sabi, Komorebi e os atravessamentos de Perfect Days


Em japonês, o título original associado ao espírito de Perfect Days poderia ser resumido por uma palavra: komorebi. O termo nomeia os feixes de luz que atravessam as folhas das árvores, um fenômeno simples, cotidiano e efêmero. É uma imagem que sintetiza a essência do filme de Wim Wenders: a capacidade de perceber o extraordinário escondido no comum.

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komorebi não possui uma tradução literal, ela descreve o modo como a luz do sol atravessa as folhas de uma árvore. A palavra é formada pela combinação de “árvore” 木, “vazamento/filtrar” 漏れ e “sol” 日.{alertInfo}

Hirayama vive justamente nesse espaço de contemplação. Seu mundo é formado por pequenos rituais: livros, fitas cassete, árvores, fotografia, música e trabalho. Há uma atenção quase sagrada aos detalhes que normalmente passam despercebidos. A luz entre as folhas, o som da cidade despertando, o gesto repetido de cuidar de algo. Seu olhar transforma a rotina em poesia.

Essa sensibilidade dialoga profundamente com a filosofia do wabi-sabi, que encontra beleza na imperfeição, na transitoriedade e na incompletude. O filme não busca uma felicidade idealizada ou uma perfeição absoluta. Pelo contrário, parece sugerir que a beleza surge justamente da aceitação das limitações, das ausências, dos encontros e das cicatrizes que carregamos.

Talvez por isso a frase de Hirayama seja tão significativa:

O mundo é formado por muitos mundos.
Alguns estão conectados. Outros, não.

Existem mundos visíveis e invisíveis, passados que permanecem silenciosos e sentimentos que nunca chegam a ser verbalizados. O protagonista parece habitar essa fronteira entre presença e ausência.


Atravessamentos e dualidades

As dualidades atravessam toda a obra. O analógico convive com o tecnológico. A satisfação caminha ao lado da inquietação. A felicidade nunca elimina completamente a tristeza. Há pertencimento, mas também fuga. Hirayama parece ter encontrado uma forma de viver em paz com seu cotidiano, mas essa paz não significa resolução completa. Existe algo que permanece guardado, talvez inalcançável.

A relação com a mulher do bar exemplifica isso. Durante cinco anos ele frequenta aquele espaço sem jamais revelar seus sentimentos. Quando conhece o ex-marido dela, surge uma das cenas mais delicadas do filme. Os dois homens brincam de capturar sombras e discutem se uma sombra sobreposta a outra produz uma tonalidade diferente. A conversa parece banal, mas fala sobre algo maior: a finitude, os encontros humanos e as marcas que deixamos uns nos outros. Talvez as pessoas também sejam assim. Ao se encontrarem, projetam sombras que se misturam, não sabendo ao certo onde começa ou termina.

Os encontros são fundamentais em Perfect Days. Cada pessoa que cruza o caminho de Hirayama produz um deslocamento. Não é apenas a rotina que se quebra; algo dentro dele também se move. O filme sugere que ninguém atravessa um encontro sem ser transformado.

Essa ideia aparece com força na cena em que ele reencontra a irmã. Entre o que é dito e o que permanece silencioso, surgem lágrimas difíceis de definir. São lágrimas de arrependimento? Dor? Saudade? Alívio? Talvez sejam todas essas coisas ao mesmo tempo. O passado, até então mantido à distância, invade o presente.

E então chegamos à cena final.


Ao som de “Feeling Good”, de Nina Simone, acompanhamos o rosto de Hirayama dentro do carro. O sorriso surge e desaparece. A tristeza aparece e recua. Há cansaço, gratidão, melancolia e esperança coexistindo no mesmo instante. O filme rejeita respostas simples. A vida não se reduz a um único sentimento. Somos feitos de camadas muitas delas ambíguas mas não diria contraditórias, pois elas coexistem no mesmo espaço.

Por isso, enfatizo que “Perfect Days” não é um filme sobre dias perfeitos. Talvez seja um filme sobre aceitar as consequências das próprias escolhas e continuar vivendo um dia de cada vez, é sobre estar sozinho mas ser afetado pelo mundo, pelo presente, pelo toque das coisas que nos atravessam em nossa jornada.

Da próxima vez é da próxima vez.
Agora é agora.

A frase me capturou pela simplicidade, soa como uma filosofia dos instantes. Não há promessa de resolução futura nem busca obsessiva por controle. Apenas a presença possível diante do instante que se está inserido. Nos faz olhar nos olhos do tempo que estamos olhando de frente, sem desviar.


Os muitos mundos de Perfect Days

Nesse sentido, a obra dialoga com universos distintos mas que estão no frame conduzindo quem assiste a permanecer nesse momento. A natureza aparece nas transições, sons de folhas sendo sacudidas pelo vento, o natural invade o filme lembrando um pouco de Tarkovski em Solaris. A delicadeza dos silêncios e da rotina cotidiana aproxima Wenders de Yasujiro Ozu, que foi a inspiração para o diretor do longa. Já a fusão entre música, memória e melancolia evoca algo do que senti com Haruki Murakami, em Norwegian Wood, onde canções e lembranças se tornam parte da própria narrativa, apesar do mundo aqui ser construído através das páginas.

As músicas do filme não servem apenas como trilha sonora. Elas ampliam os significados das cenas. “The Dock of the Bay”, de Otis Redding, fala sobre observar a vida passar enquanto se procura um lugar no mundo. “Feeling Good”, de Nina Simone, anuncia um novo dia e uma nova vida, mas sem apagar as dores que vieram antes. Ambas dialogam diretamente com Hirayama.

No fim, Perfect Days nos faz lembrar que a arte não está separada da vida cotidiana. Ela pode existir no modo como observamos uma árvore, escutamos uma música ou recebemos um encontro inesperado. A beleza não está escondida em grandes acontecimentos, mas nos intervalos. Nos espaços entre uma tarefa e outra. Nos feixes de luz atravessando as folhas, naquilo que é imperfeito.


O Sublime

Burke nos lembra que nem toda beleza nasce da harmonia e da perfeição. Algumas experiências nos tocam justamente porque carregam mistério, ausência e aquilo que não conseguimos traduzir por completo. Em Perfect Days, essa sensibilidade aparece no olhar de Hirayama para o mundo: um olhar capaz de encontrar significado não apenas no que é belo, mas também no que é transitório, incompleto e silencioso.

É nesse ponto que Burke dialoga com o filme. Embora seja atravessado pela delicadeza do belo, ele também toca algo do sublime: não nas tempestades ou nos abismos, mas na silenciosa consciência de que a vida é maior do que nossa capacidade de compreendê-la. Nos momentos em que Hirayama apenas observa a luz entre as folhas, o movimento das sombras ou a passagem do tempo, o cotidiano deixa de ser apenas cotidiano e se torna esse mistério inescapável. E talvez seja justamente aí que resida a poesia do filme: na percepção de que existem experiências que não precisam ser explicadas para serem profundas.

Como o komorebi. Como a poesia dos instantes. Como a beleza discreta e indizível que, por um momento, atravessa o mundo e nos atravessa junto.

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