Existem filmes que apenas assistimos. Outros nos atravessam.
Hiroshima Mon Amour não me parece um filme que se deixa compreender facilmente. Talvez porque ele não esteja interessado em contar uma história de amor da maneira convencional. Tenho a impressão de que esteja interessado em algo muito mais difícil: a memória, o esquecimento e a forma como ambos habitam nossos corpos.
Montagem e Memória
Desde sua sequência de abertura, Alain Resnais rompe com a narrativa clássica. Em vez de apresentar personagens, conflitos e uma progressão linear dos acontecimentos, o diretor constrói uma experiência sensorial. O filme não organiza o tempo: ele o fragmenta. Passado e presente coexistem, misturando lembranças, imagens documentais e ficção até que se tornem praticamente indistinguíveis.
Logo nos primeiros minutos o espectador é pego pelas sobreposições de imagens, pela textura da pele, pelas cinzas, pelos corpos que parecem se fundir às ruínas da cidade. A montagem não conecta apenas planos; ela aproxima temporalidades distintas, fazendo com que a memória se manifeste como algo vivo, descontínuo e profundamente instável. Em vez de organizar o tempo, ela reproduz o funcionamento da própria memória. Existe uma sensibilidade visual impressionante na forma como o filme constrói significados. Casas, ruas, salões, corredores e fachadas não aparecem apenas como cenários. Eles possuem uma presença quase física.
Essa escolha formal dialoga diretamente com a trajetória de Alain Resnais. Antes de realizar Hiroshima Mon Amour, o diretor já havia investigado os traumas da Segunda Guerra Mundial em documentários como Noite e Neblina (Nuit et Brouillard, 1956). Sua experiência documental permanece aqui, mas atravessada pela poesia do roteiro de Marguerite Duras. O resultado é um cinema que oscila continuamente entre documento e lembrança, entre registro histórico e experiência subjetiva.
Minha primeira pergunta foi: por que destacar tanto a arquitetura com sobreposições de imagens de ruas, casas, espaços? Quanto mais o filme avançava, mais essa pergunta parecia encontrar uma resposta. A arquitetura é memória transformada em matéria. Aquilo que os corpos esquecem. As cidades lembram. As ruas contam histórias. Ela não organiza apenas o espaço da ação; os edifícios, corredores e fachadas tornam-se arquivos do passado.
Assim como no amor, existe essa ilusão, essa ilusão que você nunca será capaz de esquecer, do jeito que eu tive a ilusão, diante de Hiroshima, que eu nunca esqueceria. Assim como no amor.
Mémoria, Amor e Esquecimento
Hiroshima não é apenas o lugar onde o romance acontece. Hiroshima é uma personagem. Cada rua reconstruída carrega a lembrança da destruição. Cada edifício existe como marca de algo que ultrapassa a experiência individual.
Em 6 de agosto de 1945, a bomba atômica lançada pelos Estados Unidos destruiu grande parte da cidade de Hiroshima. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas morreram instantaneamente e que o número total de vítimas continuou crescendo nos meses e anos seguintes devido aos efeitos da radiação. Pela primeira vez na história, a humanidade testemunhava uma capacidade de destruição que parecia ultrapassar qualquer imaginação.
Cerca de três dias depois, uma segunda bomba seria lançada sobre Nagasaki, consolidando um dos acontecimentos mais traumáticos do século XX.
É justamente esse trauma que atravessa o filme. Quando a personagem afirma ter visto Hiroshima através de fotografias, museus, objetos queimados e reconstruções, ela está diante de um problema fundamental da modernidade: como representar uma catástrofe dessa magnitude? Como lembrar algo que excede nossa capacidade de compreensão?
Talvez seja por isso que o personagem Lui insiste repetidamente:
“Você não viu nada em Hiroshima.”
A frase não me parece uma negação dos fatos. Ela funciona como um mecanismo que faz o espectador refletir. Nenhuma fotografia é suficiente. Nenhum museu é suficiente. Nenhum filme é suficiente. Nenhuma narrativa consegue conter completamente uma tragédia. É exatamente isso que “Você não viu nada em Hiroshima” significa. Não vimos nada!
Ao mesmo tempo, essa repetição funciona como uma reflexão sobre o próprio cinema. Resnais parece perguntar quais são os limites da imagem diante de um trauma histórico. Até que ponto um filme pode realmente mostrar uma catástrofe? A resposta nunca é oferecida. Em vez disso, o diretor transforma essa impossibilidade no próprio tema da obra.
Ainda assim, a memória insiste. Me parece que seja justamente essa insistência que o filme investiga. Durante boa parte da obra senti que ela falava sobre guerra, destruição, memória, esquecimento, indiferença e sobre a necessidade quase desesperada de lembrar. Mas, aos poucos, percebi que também falava sobre amor. Ou melhor: sobre como amamos em meio às ruínas.
Daqui a alguns anos, quando eu me esquecer de você e outros romances como este ocorrerem por puro hábito, vou me lembrar de você como um símbolo do esquecimento do amor. Esse caso me lembrará o quão horrível é o esquecimento.
Memória Histórica e Memória afetiva
Existe uma passagem em que a personagem (Elle), afirma que acreditou jamais esquecer Hiroshima. Mais tarde, percebe que começou a esquecer. Da mesma forma, acreditou que jamais esqueceria um amor vivido durante a guerra. Também começou a esquecer.
O filme cria então um paralelo, entre o esquecimento que ameaça os grandes acontecimentos históricos e o mesmo que ameaça os acontecimentos íntimos. Assim como uma cidade pode desaparecer da memória coletiva, um amor também pode desaparecer da memória individual.
Assim como a história corre o risco de ser reduzida a números e estatísticas, uma paixão corre o risco de se tornar apenas uma lembrança vaga.
Essa relação entre memória histórica e memória afetiva também aparece na própria estrutura narrativa. O filme abandona a linearidade e organiza seus acontecimentos como a própria lembrança humana: fragmentada, descontínua, feita de retornos inesperados, associações livres e sobreposições temporais. A montagem deixa de ser apenas um recurso narrativo para tornar-se uma forma de pensar e de observar os fatos.
O filme estabelece uma relação tão profunda entre amor e memória. Amar torna-se resistência contra o desaparecimento. Lembrar também.
Enquanto assistia, me peguei desviando constantemente do romance para observar outras coisas. As ruas. Os espaços. Os gestos. As palavras. As marcas deixadas pela guerra, e o impacto dela no período histórico e o significado delas. A trama traz além de Hiroshima (1945), a ocupação da França (1940) e o trauma desse período.
Também me chamou atenção a maneira como o filme utiliza o silêncio. Em muitos momentos, o que permanece fora de quadro ou aquilo que deixa de ser dito comunica tanto quanto os diálogos. A voz em off não explica as imagens; frequentemente as contradiz, criando uma tensão constante entre aquilo que vemos e aquilo que ouvimos. É justamente dessa fricção que nasce boa parte da força emocional do filme.
Talvez eu seja uma péssima romântica. Ou talvez não. Porque comecei a me perguntar se o contexto também narra o amor. Acredito que sim. Ninguém ama no vazio. Amamos dentro da história. Dentro das cidades. Dentro das consequências de acontecimentos. Dos contextos.
Se aqueles personagens existissem em outro lugar, em outro momento histórico, seriam pessoas diferentes. Amariam de forma diferente. Nem se encontrariam.
Hiroshima não serve apenas como pano de fundo para o romance. Ela molda o romance. O filme parece dizer que nossos sentimentos nunca pertencem apenas a nós. Eles carregam consigo os ecos do mundo que habitamos. Nevers para Elle é um lugar que a transformou, Lui estava certo!
Há uma certa dificuldade em traduzir em palavras aquilo que sentimos. Existe algo entre o silêncio e a perturbação dos sentidos. Algo que permanece ocupando esse espaço, se estendendo como ponte, ligando algo desconhecido, atiçando as emoções e guiando as almas inquietas, reverberando depois que o filme termina.
Não encontrei cinismo em Hiroshima Mon Amour. Encontrei melancolia. Uma melancolia profundamente humana. O filme não desvia o olhar da guerra, das consequências, mas também não desvia o olhar do amor. Em vez disso, aproxima ambos até que se tornem quase inseparáveis.
Percebi que a maior força de Alain Resnais é provocar. O filme não traz nenhuma verdade absoluta, não soa como documento definitivo, mas atua como um diálogo de longa duração, sobre o tempo, imagem e memória.
Em vez de oferecer respostas, transforma o tempo em matéria cinematográfica. Não utiliza a memória apenas como tema, mas como forma. O espectador não observa personagens recordando; ele próprio passa a experimentar o movimento instável da lembrança.
No fim, saí com a sensação de ter sido atingida por um trem sem freio. Não pela violência das imagens, mas pela compreensão de que esquecer talvez seja inevitável. E justamente por isso lembrar se torna tão importante.
Vencer a indiferença também. Não basta caminhar por museus e observar imagens; é preciso permitir que elas nos atravessem, para que sua memória permaneça viva e para que tragédias como essa jamais sejam reduzidas ao esquecimento.
Notas do Rodapé
HIROSHIMA mon amour. Direção: Alain Resnais. Roteiro: Marguerite Duras. França; Japão: Argos Films; Como Films, 1959. 1 filme (90 min), son., preto e branco.

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