A HQ lançada pela Darkside Books, na edição brasileira chama-se A Bruxa Margaret, enquanto o tÃtulo original é Dull Margaret. A palavra inglesa dull pode significar algo como apagado, monótono, lento ou obtuso, dependendo do contexto.
Essa diferença de escolha para o tÃtulo me permitiu levantar uma questão: O que o tÃtulo original evidencia sobre a personagem e o que a tradução brasileira sugere sobre a personagem?
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Quando eu fui na feira do livro, a primeira coisa que me chamou atenção foi a capa do quadrinho melancólico, com uma figura feminina trajada em vestido simples no tom de vermelho, com um fundo azul-acinzentado profundo e então o tÃtulo “A Bruxa Margaret“ escrito em letras garrafais enquanto a figura parecia pequena e perdida. Lembro de me questionar se seria essa mais uma história de uma mulher não convencional recebendo o adjetivo de bruxa e porque tanta tristeza em uma capa.
Ao finalizar a história, ainda me pergunto quais palavras da lÃngua inglesa ainda poderiam definir Margaret. Nesse momento a palavra que mais dói e que parece se entrelaçar ao que é mostrado é “apagada”.
Margaret é inocente, doce e sonhadora em alguns momentos. Em outros parece caótica, perdida, desiludida e fora de si. Parece confusa, abstrata e complexa demais para ser definida em apenas uma frase nesse texto.
Todas as possÃveis traduções de Dull para a lÃngua portuguesa soam pesadas demais, duras demais. E cada tÃtulo molda a nossa primeira percepção sobre a personagem. A palavra bruxa pode sugerir ameaça e maldade, mas também pode evocar independência, transgressão, perseguição ou uma mulher que escapa à s normas sociais.
Aqui entra o contexto histórico e artÃstico que dá profundidade ao texto.
A mulher diante do inferno
A HQ de Jim Broadbent e Dix foi inspirada na figura de Dulle Griet, também conhecida como Mad Meg ou Meg a Louca, retratada por Pieter Bruegel, o Velho, em uma pintura a óleo sobre painel de 1563. A obra está no acervo do Museum Mayer van den Bergh, em Antuérpia, na Bélgica.
Nota-se que, na pintura, uma figura feminina armada se destaca, usando uma espécie de armadura sob o vestido e carregando uma espada em um cenário infernal. Ao redor dela, a paisagem é caótica, repleta de criaturas grotescas e estruturas estranhas. O fundo vermelho transmite uma sensação de urgência, enquanto o horizonte parece estar em chamas. O curioso é que ela carrega objetos modestos, na sacola uma frigideira aparece junto a outros objetos que parecem ter sido saqueados em meio a um cenário violento de um campo de batalha de homens e criaturas bizarras. Ao fundo há pequenas mulheres que empurram, derrubam e saqueiam. Tem uma mulher carregando um saco saindo de uma espécie de casa.
A figura de Dulle Griet foi interpretada de diferentes maneiras ao longo do tempo. Em um estudo publicado em 1977, a historiadora da arte Margaret A. Sullivan1 propõe uma leitura da pintura como alegoria da loucura e da insensatez.
Jonathan Jones2 interpreta Dulle Griet como uma espécie de anti-heroÃna, em que a mulher que avança por uma paisagem destruÃda, armada e carregando objetos em meio à violência. Ele relaciona a cena à prática histórica de saques cometidos por exércitos europeus e enxerga nela um espÃrito trágico e cômico de sobrevivência. Outras interpretações ainda destacam a ganância da personagem ou a inversão dos papéis tradicionais de gênero, sugerida pela presença de uma mulher armada que avança diante do inferno.
A pintura parece oscilar entre o grotesco, a sátira e o fantástico, sem oferecer uma resposta definitiva sobre sua protagonista. Mas o que a referência a Dulle Griet acrescenta à maneira como entendemos Margaret?
O que faz uma bruxa?
A referência a Dulle Griet acrescenta outra camada à leitura de Margaret. Não se trata apenas de reconhecer uma figura histórica que inspirou a HQ, mas de observar o que essas duas mulheres parecem carregar consigo. Apesar das diferenças entre Dulle e Margaret, há um contraste que me chama a atenção: de um lado, temos uma mulher que avança armada diante de uma paisagem infernal; do outro, uma personagem que parece viver de forma escassa e longe de qualquer glória, cujo tÃtulo original parece sugerir alguém apagada, que parece não encontrar seu lugar no mundo. Seu inferno está estampado em seu rosto medonho e em suas expressões.
Enquanto uma me parece uma versão romanceada de mulher conquistadora em um mundo em chamas, a outra parece seguir o oposto, beirando a loucura sem fogos de artifÃcios, mas submersa em uma estranha calma. Enquanto Dulle preserva a sua humanidade e o caos está no cenário, Margaret concentra a loucura em si e o seu cenário é melancólico, frio e denso e solitário.
Onde está a bruxa nisso?
O termo conduz a uma figura que parece ter sido definida por aquilo que desperta nos outros, está presente no ideal de medo, de estranheza, de desconfiança ou fascÃnio.
A palavra “bruxa” não chega até nós vazia de significado. No imaginário popular brasileiro, ela pode evocar a velha dos contos de fadas, a figura sombria dos filmes de terror ou uma mulher que desperta medo por seus conhecimentos e por sua relação com aquilo que escapa à s normas sociais. São imagens distintas, construÃdas ao longo do tempo e que convivem em nossa cultura.
Essa multiplicidade torna a escolha do tÃtulo brasileiro ainda mais interessante. Ao chamar a personagem de A Bruxa Margaret, a edição desperta um conjunto de expectativas antes mesmo de iniciarmos a leitura. Mas será que Margaret corresponde à figura que essa palavra nos faz imaginar?
Eu suponho que Margaret não corresponde por completo à figura que a palavra “bruxa” nos faz imaginar. Embora recorra à magia e cometa atos cruéis na busca por amor, riqueza e algum controle sobre a própria vida, ela também é uma mulher solitária que parece buscar algum tipo de afeto mas que desconhece como alcançar, eu diria que é marcada pelo desejo de encontrar algo que lhe falta e claro, pela humilhação.
Sua aparência grotesca, suas expressões difÃceis de decifrar e a atmosfera melancólica que a envolve podem despertar estranhamento, mas não explicam, por si só, quem ela é. Há algo de profundamente humano em seus desejos, ainda que suas escolhas provoquem desconforto e repulsa. Margaret não é inteiramente inocente, tampouco um monstro que possamos compreender de imediato. É uma contradição inquietante pois por trás do nome que lhe deram, existe alguém que não se deixa definir tão facilmente.
Em uma entrevista ao The Guardian, Jim Broadbent3 demonstra profunda simpatia por Margaret. Para ele, apesar de sua aparência e de suas atitudes, ela busca coisas que todos nós desejamos: conforto, condições dignas de vida e amor.
Ao longo dessa jornada, Margaret é roubada, ridicularizada e humilhada, tentando sobreviver. Essa perspectiva não apaga a crueldade de suas escolhas, mas nos permite olhar mais de perto as nuances que se insinuam. O horror da personagem não está apenas naquilo que ela é capaz de fazer, mas também no que sua trajetória revela sobre a solidão e a vulnerabilidade em um mundo absurdo.
No final da leitura, me perguntei sobre esses espaços entre os quadros, e quem seria Margaret para além do nome que lhe deram? Quem são os monstros e quem os nomeia?
Nomear também é enquadrar, criar expectativas e, às vezes, acreditar que compreendemos algo antes de realmente conhecê-lo. Conheçam a bruxa e bom café das trevas!
Notas do Rodapé
https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00043079.1977.10787370
https://www.theguardian.com/culture/2002/dec/14/art
https://www.theguardian.com/culture/2018/jul/06/jim-broadbent-dix-interview-dull-margaret-graphic-novel


