Na crônica de hoje, nos tornamos Daenerys, a Não Queimada, Nascida da Tormenta, em uma reflexão sobre dançar com dragões e romper as correntes desta sociedade líquida.
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Enquanto tomava chá e lia o terceiro livro da saga Game of Thrones, fui atropelada por um pensamento. Ou melhor, por uma frase. Dessas que interrompem a leitura, fazem a gente permanecer por alguns instantes olhando para a mesma linha, como se as palavras seguintes pudessem esperar, sem pressa para correr para a próxima linha ou parágrafo.
Em uma sociedade acostumada à urgência, a disposição de demorar-se em uma frase pode soar estranha. Consumimos histórias, imagens e ideias em uma velocidade que nem sempre nos permite perceber o que elas poderiam despertar em nós. Passamos de uma página à outra, de uma obra à seguinte, como se terminar fosse mais importante do que experimentar. Parar e permitir que um trecho nos atravesse, também pode ser uma forma de resistência.
Às vezes, uma frase permanece conosco muito depois de a termos lido. Ela reaparece sem aviso no dia seguinte, no intervalo entre um pensamento e outro, enquanto fazemos coisas banais ou estamos ocupados de qualquer outra coisa da vida adulta. Não sabemos exatamente o que nos prendeu a ela, mas de alguma forma ela persiste, ecoando dentro de nós, nos puxando de volta.
Temos fãs de GOT aqui? Se sim, já ouviram ou leram essa frase?
“Not all men were made to dance with dragons.”
Não sei se foi a provocação ou o convite que me chamou a atenção primeiro. Sei que, de alguma maneira, me reconheci nela. Não nos dragões, apesar de amar a figura mitológica, mas nesse intervalo entre a fera assustadora que causa medo, e o ser humano, que em sua ousadia que ao invés de enfrentar uma guerra, sair com a sua armadura e armas, dança.
Mas o que seria esse dragão e porque dançar?
Gosto de pensar que cada pessoa tem seus próprios dragões, que podem paralisá-la ou a colocar em movimento. Alguns dragões assumem a forma dos medos que carregamos, outros surgem nas perguntas que nos perseguem, nas ideias que desafiam nossas certezas, nos mistérios que nos atraem ou nas experiências que nos colocam diante de tudo aquilo que ainda não compreendemos. Há dragões que gostaríamos de enfrentar, outros dos quais tentamos nos afastar e aqueles que, mesmo sem entender por quê, não conseguimos deixar de contemplar. Fascínio e medo os cercam.
Os meus talvez sejam feitos de inquietações, de curiosidade e dessa necessidade de olhar para além daquilo que se apresenta à primeira vista. Há algo que me move naquilo que escapa às respostas imediatas, que resiste às tentativas de classificação e que não se entrega inteiramente ao entendimento. Não porque eu queira transformar tudo em mistério, mas porque desconfio das certezas. Uma vez ouvi que até mesmo o óbvio e o verdadeiro precisam ser ditos, e penso que mais que isso, as coisas óbvias também precisam ser encaradas e as suas camadas exploradas.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais me fascina o espanto.
Acostumamo-nos a atravessar o mundo como quem percorre um caminho conhecido. Nomeamos as coisas, reconhecemos padrões, organizamos a realidade em categorias que nos permitem compreendê-la e seguir adiante, com certo conforto de um conhecimento que muitas vezes não se aprofunda. Sabemos nomear apenas, mas escapa o significado.
O espanto é movimento necessário. O óbvio nos coloca em conforto e pode nos tornar indiferentes. O familiar perde a estranheza, o cotidiano se torna automático e, pouco a pouco, deixamos de perceber aquilo que continua diante de nós em estado de costume.
Mas o mundo não precisa se transformar para voltar a nos espantar. Às vezes, basta que nosso olhar se transforme.
Uma conversa pode revelar uma complexidade que não havíamos percebido. Um livro pode desarranjar convicções que julgávamos firmes. Um acontecimento banal pode abrir uma pergunta que nos acompanha por dias. Há momentos em que aquilo que parecia perfeitamente compreensível se torna estranho outra vez, como se a realidade, por um breve instante, deixasse entrever algo que nossa familiaridade havia encoberto. Os olhos acostumados podem mais uma vez voltar a brilhar!
Talvez exista uma forma de fascínio naquilo que não conseguimos dominar. Há sempre algo que permanece além, alguma coisa que não se deixa capturar por inteiro.
Então o que significa dançar com dragões?
Dançar com eles não significa ignorar o perigo, negar o medo ou romantizar aquilo que nos fere. Tampouco significa que toda dificuldade deva ser enfrentada ou que todo mistério precise ser perseguido e esgotado.
Penso que está na disposição de permanecer diante daquilo que nos provoca, sem transformar imediatamente o desconhecido em inimigo e sem exigir que tudo se torne familiar para que possamos nos aproximar. Não precisamos colocar tudo nas correntes do saber, ou trancar as portas e janelas no conforto do que é apenas reconhecível. Para estar diante de um dragão é preciso antes de tudo uma natureza que aceita o convite à dança. E aqui mora a minha paixão pela frase.
Dançar é diferente de guerrear. Não é uma batalha, não há vitória… Não pressupõe subjugar aquilo que está diante de nós, tampouco sair ileso do encontro. Há uma espécie de entrega nesse movimento, de uma ousadia que não pertence a todo ser humano. Imagino uma pessoa com trajes leves, talvez passos receosos, ninguém sabe como a dança começa e quais movimentos podem ser feitos. Sabe-se que o dragão pode se irritar, abrir a sua boca e num instante tudo virar cinza. Não é uma entrega passiva, há tensão, atenção, presença e disposição. A dança exige consciência corporal e cuidado com os movimentos, que se ajustam e evolue, tornando o dançarino(a) cada vez mais treinado.
Talvez por isso a imagem me pareça tão significativa. Existe algo de revolucionário na dança, em reconhecer que nem tudo precisa ser domesticado.
Vivemos cercados de tentativas de controlar, prever, explicar e tornar familiar aquilo que nos escapa. Aprendemos a desconfiar do que não compreendemos, como se a ausência de respostas fosse necessariamente uma falha a corrigir ou que apenas as coisas conceituadas e nomeadas com rigor fossem de fato as únicas verdadeiras. Mas há experiências que nos mostram o valor nas coisas que não estão aqui para serem resolvidas, a vida não é uma grande matemática regida apenas por lógica focada em resolver problemas.
Com o tempo, percebemos que algumas coisas pedem contemplação, outras exigem questionamento. Aquelas que simplesmente nos deslocam e permanecem conosco, sem oferecer uma conclusão definitiva, que nos fazem sentir, que arrepiam a nossa alma escapando das regras da lógica.
Não quero dizer que devamos abandonar a razão em favor desse mistério, ou que devemos seguir apenas a linha sensível, muito pelo contrário, podemos investigar, questionar e compreender que também existem complexidades e que elas também existam com a sua própria maneira de existir selvagem. A diferença está em não confundir compreender com esgotar, nem conhecimento com domínio absoluto. Podemos buscar explicações sem supor que elas eliminem toda a complexidade daquilo que investigamos e que a cada nova resposta, surgem também novas perguntas e hipóteses.
Talvez dançar com dragões seja aceitar essa tensão e testar limites. Aproximar-se sem a pretensão de possuir, questionar sem a obrigação de encerrar, contemplar sem reduzir tudo a uma resposta e reconhecer que o espanto não é necessariamente o contrário do conhecimento, mas pode ser aquilo que nos põe em movimento em sua direção. Para Aristóteles, o espanto é o que nos leva à sabedoria.
Podemos imaginar que os dragões não habitam apenas os abismos, as grandes paisagens ou as histórias fantásticas e aqui eles podem surgir nas contradições que encontramos em nós mesmos, nas ideias que nos obrigam a rever nossas posições, nas obras que nos atravessam e nos detalhes cotidianos que, por um instante, interrompem o curso habitual das coisas. Às vezes, o que nos desafia está distante voando sob os céus e nos fazendo sombras; outras vezes, está tão próximo que deixamos de percebê-lo por acreditarmos que as correntes são suficientes e que dominamos em absoluto a grande fera.
Talvez seja preciso reaprender a olhar para ambos. Permitir-nos o assombro… A redescoberta … Desacelerar e a enxergar de fato, e não apenar ver.
Não sei se todos estão dispostos a essa dança, nem acredito que precisemos dançar com os mesmos dragões. Cada um encontrará aquilo que o inquieta, o desafia ou o fascina de maneiras distintas. O que para alguém é abismo, para outro pode ser horizonte. O que desperta temor em uns pode despertar curiosidade em outros. Podemos dançar em ritmos diferentes, escapar das chamas com passos improvisados, cantando novas canções, ditando novos ritmos…
O que me interessa é a possibilidade de não recuar automaticamente diante daquilo que ainda não compreendemos e de nos permitirmos dançar. Possibilitar que certas perguntas permaneçam abertas, que algumas experiências continuem reverberando e que o mundo conserve, apesar de tudo o que sabemos sobre ele, a capacidade de nos surpreender.
Talvez nem todos tenham sido feitos para dançar com dragões.
Não se trata de não ter medo e se afundar no comodismo. Trata-se de não permitir que o medo seja sempre a porta que nos tranque em nosso castelo, e que o comodismo nos aprisione em nosso palácio de ilusões. Que o olhar acostumado nos prive de perceber que a dança pode ser libertadora.
Há dragões que não serão vencidos, mistérios que não serão inteiramente desvendados e perguntas que talvez nos acompanhem por toda a vida. Talvez a gente desperte o dragão em ira e nossas vestes por estarmos despidos de armaduras saiam chamuscadas. Ainda assim, podemos escolher dançar e abandonar as armaduras para que elas não impeçam os nossos passos. Dancemos, pois, com os dragões!
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